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segunda-feira, 16 de agosto de 2010

O Código Da Vinci

Toda virada de século, quiçá de milênio, traz insegurança à humanidade que, nos dias atuais, ainda vive atormentada com o aparecimento de falsos profetas, ocultos sob a máscara de historiadores modernos cujo conhecimento não passa de meras especulações. É, como se diz, "a História não muda, e sim, os historiadores".

A trama que resultou no filme O Código da Vinci, mais freudiana do que científica, é de ser reconhecida por detalhes (premissas) que, no contexto geral, induzem a um sofisma.

"Atire a primeira pedra quem não tiver pecado" demonstra um fato que, "editado", leva a platéia a conclusões maliciosas acerca do envolvimento sentimental de Jesus com Maria Madalena, tida como prostituta no seu tempo e, no filme, santificada em virtude da perseguição sofrida pelas mulheres.

Nos tempos hodiernos não é diferente, já que a simples amizade entre um homem e uma mulher é, por vezes, considerada uma relação adúltera. Sabe-se, no entanto, que corrupção é estar corroído por dentro, seja no tocante à religião, à cultura, ao amor, à amizade ou qualquer outro tipo de relacionamento humano.

Sendo assim, é preciso entender a fé à luz da ciência e do empirismo, quando, neste contexto, a razão é elidida.

Não há dúvida que as mulheres desempenharam, e vêm exercendo, importantes papéis na sociedade, no âmbito familiar e dos costumes. Mas, em face do comportamento reinante nas sociedades primitivas, a obra O Código da Vinci leva esse elemento histórico-cultural ao extremo, afirmando que Maria Madalena contou com a predileção de Jesus, que a teria amado mais que ao apóstolo João e até mesmo Pedro, que edificou a Igreja.

Nesse ponto, o filme é bastante envolvente, atingindo com força o íntimo de pessoas com fé vacilante e um quadro emocional instável. Outros trechos, como o que mostra o envolvimento de um culto professor – diga-se de passagem, representado pelo ator mais cobiçado de Hollywood – com uma personagem atéia, descendente de linhagem de sangue real (Cristo), dão um toque de magia à história.

Inegável, contudo, é o marketing em prol do filme, reforçado pelo posicionamento da Igreja Católica, que, sem dúvida, estimula o que é "proibido".

Como numa telenovela, os cenários franceses em que foram filmadas passagens cristãs verídicas cativam a platéia ante a "realidade da história religiosa". O filme, sem dúvida, prende a atenção pelas inúmeras indagações que suscita, das quais o mistério do "Santo Graal" seria apenas um exemplo: cálice sagrado em que Jesus bebera durante a Última Ceia ou onde José de Arimatéia recolhera o sangue proveniente da ferida provocada em seu flanco pela lança do centurião romano?

Com certeza, o propósito do filme é único: in dubio pro reflexão, ou seja, provocar confusão mental pela dúvida. Veja-se que durante as filmagens a câmera foi posicionada "abaixo dos ombros dos heróis", criando um cenário de intimidade, sinceridade e afeição, para incutir confiança nas pessoas. Já a iluminação visou configurar situações dramáticas e constrangedoras, e a técnica do "arquivo confidencial", remontando ao passado dos personagens e seus traumas infantis, teve por fim envolver o público num clima de solidariedade.

Por outro lado, o filme contém mais elementos de marketing político do que de fé. Um deles é a apresentação de Jesus como mero mortal e não um ser divino. Segundo a obra literária, foi o Imperador Constantino, o Grande (272-337 d.C), quem universalizou o cristianismo e instituiu a religião católica, que, com seu poder moderador, teria divinizado Cristo.

Ciúme, adultério, traição ... . Na política, traições são normais; na vida conjugal, porém, podem levar à morte o cônjuge traidor ou, o que é mais intrigante, tornarem-se quase "obrigatórias" por sinalizar sucesso e poder.

Outras especulações surgem com relação aos "anagramas" feitos por Leonardo da Vinci na pintura sobre a "Última Ceia de Jesus com seus Apóstolos", quando colocou Maria Madalena, ao espelho de Cristo, no lugar de João, apresentando-a como apóstola-mor.

Dizem alguns que Leonardo da Vinci não reconhecia o Cristo como filho de Deus, e sim, como mortal. Daí por que nos afrescos e quadros que pintava retratava João Batista com o dedo sempre para o céu. Seria ele o "verdadeiro" filho de Deus...

Como a obra literária e o filme têm lastro nas pinturas de Leonardo da Vinci, é preciso conhecer este gênio das artes, para dar-lhe crédito ou contraditá-lo. Como foi a sua infância? Que formação lhe fora propiciada pela família? Que posturas de natureza política e filosófica o influenciaram?

Isolamento social e tristeza podem ser sinais de depressão. Leonardo da Vinci foi uma criança solitária, assim como foram o físico Albert Einstein e o cineasta François Truffaut.

Nascido no dia 15 de abril de 1452, na localidade de Vinci (Itália), filho ilegítimo de um tabelião e de uma camponesa, Leonardo foi criado pelo pai e pela madrasta na casa do avô paterno, longe de sua mãe, até os 20 anos. As mortes da madrasta e do avô, quando tinha 13 e 16 anos respectivamente, causaram-lhe sofrimento intenso.

Aos 17 anos, quando já dava sinais do seu talento, o pai inscreveu-o como aprendiz no ateliê de Andrea Verrochio, em Florença, onde era possível adquirir conhecimentos sobre cálculo, perspectiva, desenho, pintura, escultura com pedra e metal, arquitetura e construção civil e militar. A partir daí, tornou-se autodidata. Seus primeiros manuscritos datam de 1478, quando contava 26 anos.

Magoado por não poder freqüentar o meio refinado em que transitavam os intelectuais devido ao desconhecimento do grego e do latim, saiu de Florença aos 30 anos e foi para Milão, onde executou as clebres pinturas "A virgem dos Rochedos" e "A última Ceia", desenvolvendo ali sua vocação para a ciência e a tecnologia.

Com a ocupação de Milão pelos franceses, em 1499, Leonardo da Vinci retornou a Florença, onde pintou o retrato da esposa de um rico comerciante chamado Francesco del Giocondo. A obra ficou conhecida em todo o mundo civilizado pelo sorriso enigmático da Monalisa.

Dali passou por Mântua e Veneza até chegar a Urbino, onde trabalhou como arquiteto militar e engenheiro-chefe da Corte de Cesare Borgia e se encontrou com Maquiavel (pai da ciência política moderna). Em seguida foi para Roma a convite de Giovanni de Medici, filho de Lourenço, O Magnífico, o qual havia sido eleito papa. Leão X – esse o nome papal – era amante dos prazeres e das artes, que protegia se os artistas satisfizessem sua vaidade.

Convocado para integrar a Corte papal ao lado de Michelangelo e Rafaello, Da Vinci não se adaptou aos jovens artistas, mais rápidos que ele, porém sem o perfeccionismo que o caracterizava. Nesse ambiente hostil, pintou seu quadro mais perturbador O Dilúvio, onde retratou a destruição.

Com a ascensão de Francesco I ao trono da França, Leonardo da Vinci foi convidado para se instalar no Palácio de Cloux, Condado de Loire, e atuar como engenheiro, arquiteto e o primeiro pintor da Corte. Lá, onde viveu seus últimos anos de vida, encontrou os que seriam os seus discípulos prediletos: Francesco Melzi e Salai (um garoto de 10 anos que trabalhava para ele e que, às vezes, roubava-lhe dinheiro).

Os auto-retratos pintados pelo artista genial deixam entrever que ele padecia de doença degenerativa, hipótese que pode ser corroborada pela mão direita semiparalisada. Com a sua morte em 02 de maio de 1519, todos os seus bens foram herdados por Francesco I, inclusive os manuscritos, somente descobertos no final do século passado.

Leonardo da Vinci pouco escreveu sobre si e o fato de se dedicar a inúmeras atividades ao mesmo tempo repercutiu negativamente em algumas de suas obras (ele pintou quinze quadros), que ficaram inacabadas, como por exemplo a Adoração dos Magos. No tocante às conclusões científicas, nada foi considerado em razão de faltar ao artista o domínio do latim e o conhecimento formal.

Na verdade, o homem é fruto do seu pensamento e de sua fé, tanto que a Constituição Federal garante a liberdade de crença.

Nesse contexto, Eckhart Tolle, em O Poder do Agora e A Prática do Poder do Agora, ensina que temos dois "EUs": o "EU falso" e o "EU verdadeiro". O primeiro é comandado pela mente (os pensamentos) e precisa de um "problema" para se abastecer, ou seja, o "EU falso" busca no passado os traumas e os insucessos, por exemplo, para projetar no futuro a solução. Já o "EU verdadeiro" é a inteligência, que, por estar acima da mente, propicia ao homem felicidade, alegria e paz interior.

O PODER DO AGORA, portanto, consiste em abstrair o passado e concentrar-se no presente, para uma evolução espiritual verdadeira e prazerosa.

Como diriam os críticos, "enquanto se discute se Jesus deixou descendentes; se Leonardo da Vinci tinha preferência por homens; se o Priorado de Sião é uma ordem secreta ou embuste, e se existe relação entre o Paternon, as Pirâmides do Egito e as obras de Da Vinci, a procura pelo livro O Código da Vinci só aumenta e outra aventura de Robert Langdon já está à venda e tem tudo para ser um best seller".

Apesar de tudo o que foi dito, o filme transmite importante mensagem de esperança e fé, em especial quando o personagem de Tom Hanks diz para a companheira atéia que poderia salvar o drogado do parque se a ele se dirigisse com amor, dando-lhe dinheiro para comer, após acalmá-lo de uma crise de claustrofobia. Essa passagem, em que o ator manifesta sua crença por ato do passado (trauma de infância) que direcionou seu presente, deixa claro que SOMOS O TEMPLO VIVO DE DEUS.

E assim somos nós quando agimos. Com efeito, por meio de nossas ações podemos fazer o bem sem mostrar a quem, multiplicando "milagres" numa verdadeira "corrente do bem". Temos uma força incrível, que é "O PODER DO AGORA", para não nos deixarmos influenciar pela mídia especializada, que exalta obras literárias e produções cinematográficas pagãs sob as quais se escondem interesses mercantis de elevada monta, e sim, extrairmos do "EU verdadeiro" a mensagem de esperança e fé que nos conduzirá a um presente feliz.

Por último, gostaria de ressaltar uma passagem que marcou a minha infância:

São Tomé, não crendo que Jesus tinha ressuscitado, propalou que somente acreditaria em sua nova vida se tocasse suas chagas. Jesus então lhe aparece e diz para tocá-las. Tomé se prostra diante do Mestre, que, em sua excelsa Sabedoria, fala:

– Em verdade vos digo... "Felizes daqueles que crêem sem ver."

Rafael Vitoreti

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